Eduardo Moacyr Krieger: O mestre da hipertensão

Segue um pedacinho da entrevista do Dr. Eduardo Moacyr Krieger: O mestre da hipertensão . Abaixo segue o link para visualizar a entrevista completa.

Qual o papel do rim na regulação da pressão arterial? Não há mais dúvida de que a hipertensão primária é multifatorial. Ela resulta do desequilíbrio entre mecanismos pressores e depressores. Dos primeiros, o mais antigo estudado é o simpático, que controla o calibre dos vasos e o débito cardíaco. Depois veio o sistema renina-angiotensina. A renina já era conhecida desde o fim do século retrasado, mas o mecanismo que faz aumentar a pressão, a angiotensina, foi descoberto por Braun Menéndez, simultaneamente com [Irvine] Page nos Estados Unidos. Isso deu força ao mecanismo do sistema renina-angiotensina-aldosterona. A angiotensina estimula a glândula adrenal a produzir aldosterona, o que provoca retenção de sal. Esses são os dois mecanismos mais conhecidos. Já os mecanismos depressores envolvem as cininas, como a bradicinina, descoberta no Instituto Biológico, em São Paulo, por Maurício Oscar da Rocha e Silva em 1948. Houve um avanço enorme quando Robert F. Furchgott, que ganhou o prêmio Nobel, descobriu há duas décadas que o endotélio, em vez de apenas proteger o vaso e impedir a coagulação, é uma fábrica de produtos hipertensores e hipotensores. Descobriu-se então que o óxido nítrico (NO) é o grande hipotensor e que tem uma ação tônica. Dentro de cada sistema que se considerava pressor ou depressor na verdade há elementos pressores e antipressores. Portanto, os mecanismos de regulação de pressão são muito complexos. Mas por que a pessoa se torna hipertensa? Com os dados que temos até agora sabemos o seguinte: primeiro, o sistema de regulação da pressão arterial está intimamente ligado aos genes. Recebemos como carga genética os mecanismos controladores da pressão. A síntese dos mecanismos pressores e depressores é feita pelos genes, portanto a carga genética pode facilitar a produção de substâncias pressoras ou formar menos substâncias hipotensoras. Através da carga genética já temos alguma predisposição para ser hipertenso ou não. Mas não basta trazer essa predisposição, o problema seguinte é o meio ambiente, que está o tempo todo suscitando regulação da pressão arterial.

E quando o senhor fala de meio ambiente… É o sal, a inatividade, a obesidade, o estresse e, atualmente, a inflamação. Todas essas coisas, de uma forma ou de outra, mexem com o sistema de regulação. Então, se você tem um sistema de regulação muito bom, pode acontecer o que for que não vai suceder nada com sua pressão. Se você tiver um sistema muito ruim, pode ficar sem comer um grama de sal, deitado numa rede e vai ficar hipertenso. Esse é o estado da arte atual sobre a hipertensão essencial, resultado da combinação do terreno com o meio ambiente. Não podemos mexer no terreno, a menos que futuramente se consiga – e vamos conseguir – saber a carga genética de cada um. Aí se pode até fazer um aconselhamento de casamento a partir dessa carga, no que diz respeito à hipertensão.

http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/07/16/eduardo-moacyr-krieger-o-mestre-da-hipertensao/

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