Sintoma do autismo pode ser detectado em recém-nascidos

Pesquisa descobriu que crianças com o distúrbio apresentam, a partir do segundo mês de vida, declínio na capacidade de manter contato visual

Contato visual: cientistas descobrem que crianças com autismo perdem com o tempo a capacidade de manter o olhar no de outras pessoas

Contato visual: cientistas descobrem que crianças com autismo perdem com o tempo a capacidade de manter o olhar no de outras pessoas (Thinkstock)

Pesquisadores americanos descobriram que é possível identificar um dos sintomas do autismo já nos primeiros meses de vida de um bebê. Segundo o novo estudo, autistas apresentam, já a partir do segundo mês de vida, uma piora na capacidade de manter contato visual com outras pessoas. A pesquisa foi publicada nesta quarta-feira na revista Nature.

“Nós observamos um declínio da capacidade de manter o olhar no de outra pessoa com o tempo, e não uma ausência completa de contato visual. Esse achado tem o potencial de mudar de forma dramática as futuras estratégias de intervenção precoce (em crianças com autismo)”, diz Ami Klin, diretor do Centro de Autismo Marcus, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo.

Declínio — Os pesquisadores acompanharam crianças desde o nascimento até elas completarem 3 anos. Eles perceberam que aquelas que foram diagnosticadas com autismo aos 3 anos apresentaram desde muito pequenas um declínio na capacidade de estabelecer contato visual com outras pessoas. Essa piora aconteceu de forma contínua a partir do segundo mês de vida e prosseguiu até os 2 anos.

A pesquisa avaliou 110 crianças. Parte delas apresentava um maior risco de desenvolver autismo, pois tinha um irmão mais velho diagnosticado com o transtorno — o que, segundo os pesquisadores, aumenta em até vinte vezes o risco. O restante das crianças foi considerado com baixo risco de autismo, pois não tinha nenhum parente até terceiro grau com o transtorno.

Os pesquisadores realizaram uma série de testes ao longo dos três primeiros anos de vida das crianças. Após a confirmação do diagnóstico de autismo, quando elas completaram três anos, os cientistas revisaram os testes para descobrir o que diferenciava as autistas das outras.

Em comunicado, os autores informaram que pretendem realizar esse estudo com um número maior de crianças para comprovar os resultados.

Seis fatores ambientais relacionados ao autismo

Uso de antidepressivos

O uso de antidepressivos durante a gravidez pode dobrar o risco do filho desenvolver autismo. Essa é a conclusão de um estudo realizado na Califórnia e publicado no periódico Archives of General Psychiatry em novembro de 2011, que envolveu 298 crianças com distúrbios do espectro do autismo (ASD, na sigla em inglês) e 1.507 crianças no grupo de controle. O uso de tais medicamentos foi relatado por 6,7% das mães de crianças autistas, contra 3,3% das mães no grupo de controle. Essa relação é considerada mais forte caso os medicamentos sejam utilizados no primeiro trimestre da gravidez.

Gripe ou febre persistente

Um estudo preliminar realizado com quase 96.736 crianças nascidas na Dinamarca entre 1997 e 2003, publicado em novembro de 2012 na revista americana Pediatrics, mostrou que a incidência de gripe ou febre prolongada durante a gravidez pode ser um fator de risco para o autismo.

De acordo com os pesquisadores, as crianças cujas mães tiveram gripe durante a gravidez tinham duas vezes mais chances de serem diagnosticadas com distúrbios do espectro do autismo (ASD) antes de completarem três anos de idade. No caso de febres com duração de uma semana ou mais, o risco pode ser até três vezes maior.
A motivação para a pesquisa surgiu de estudos em animais, que indicavam que a ativação do sistema imunológico da mãe durante a gravidez poderia afetar o desenvolvimento do cérebro da criança.

Obesidade, diabetes e pressão alta

Mães obesas têm chances maiores de ter filhos autistas. De acordo com um estudo publicado no periódico Pediatrics em abril de 2012, a obesidade materna aumenta em até 67% a chance da criança sofrer do distúrbio.

A pesquisa envolveu com 517 crianças com distúrbios do espectro do autismo (ASD, na sgila em inglês), 172 com distúrbios do desenvolvimento e 315 com desenvolvimento normal, nascidas na Califórnia entre janeiro de 2003 e junho de 2010, e mostrou que a incidência de diabetes, hipertensão e obesidade das mães era maior no grupo que apresentava a doença do que no grupo de controle.
Além disso, dentre as crianças com ASD, aquelas cujas mães tinham diabetes apresentavam dificuldades relacionadas à linguagem, em comparação com os filhos de mulheres não-diabéticas.

Vitamina D

Diversos estudos associam baixos níveis de vitamina D no sangue a doenças autoimunes. Um estudo publicado em agosto de 2012 no periódico Journal of Neuroinflammation aponta uma relação entre a falta dessa vitamina e o autismo

A pesquisa foi realizada com 50 crianças autistas, entre 5 e 12 anos, e 30 crianças com desenvolvimento normal. Entre as crianças com autismo, 88% delas tinham insuficiência ou deficiência (sendo a última a mais severa) de vitamina D. Ao mesmo tempo, 70% dos pacientes com a síndrome apresentaram níveis elevados do autoanticorpo denominado anti-MAG (glicoproteína associada à mielina). Autoanticorpos são células do sistema imunológico que atuam contra proteínas do próprio indivíduo que as produz, e por isso estão associados a doenças auto-imunes, como diabetes tipo 1 e lúpus sistêmico, por exemplo.
Os pesquisadores acreditam que a deficiência de vitamina D pode contribuir para a produção do autoanticorpo, mas a relação de tal vitamina com o autismo ainda não é clara.

Tabagismo

Fumar durante a gravidez está associado a distúrbios menos graves relacionados ao autismo, como a Síndrome de Asperger. Essa é a conclusão de um estudo realizado pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), nos EUA, que analisou dados de 633.989 crianças nascidas entre 1992 e 1998. Por outro lado, não foi identificada relação entre o fumo na gravidez e o autismo comum.

Poluição do ar

A poluição do ar é um fator ambiental que tem sido relacionado ao autismo por diversos estudos. Uma pesquisa de 2010, realizada na Califórnia, mostrou que crianças que viviam a menos de 300 metros de rodovias tinham o dobro de chance de desenvolver autismo do que aquelas que viviam mais longe.

Os mesmos pesquisadores publicaram um estudo em novembro de 2012, no periódico Archives of General Psychiatry, que aprofunda tais resultados. Participaram 279 crianças diagnosticadas com autismo e outras 245 que não apresentavam a doença. As mães informaram os endereços em que viveram durante a gestação e o primeiro ano da criança e os pesquisadores analisaram os níveis de poluição do ar em cada local. O resultado mostrou que as crianças que foram expostas aos maiores níveis de poluição causada por veículos tinham até três vezes mais chances de desenvolverem autismo.

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